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Retornando ao mundo dos vivos após enfrentar uma epidemia Phyrexiana, trago a vocês o final do conto “O Mercador de Ravnica”. Não sei algum de você percebeu a similaridade do título com a obra de Shakespeare “O Mercador de Veneza”, mas não por acaso. Bem, realmente a história não possuí ligação alguma com a tragédia shakespeariana, mas o que me levou a batizá-la assim foi pelo detalhe do acordo que houve entre Antônio e Shylock. Uma pequena clausula no acordo fez toda a diferença e nesse pequenino detalhe que eu baseie minha história. Caso ainda não tenha lido a primeira parte deste conto, confira aqui.

E agora com vocês  a parte final da peça…ops, do conto… 

O Mercador de Ravnica – Parte II

O fogo crepitava na lareira esquentando aquele ambiente frio e gélido. Sentando em uma poltrona negra com duas cabeças de gárgulas em cada braço, estava o receptor da informação. Ele estava sentado de frente para o fogo, os olhos semicerrados perscrutavam as chamas como se buscasse alguma coisa ou estivessem esperando alguém.

Enquanto ele ponderava subitamente, um espectro se materializou no interior da sala. O homem sentado não se deu ao luxo de virar-se e ver quem era, somente continuou a sondar as chamas.

“Trago as ordens do Manto Crepuscular, meu senhor.”

“Diga-as.”

“Vanessa Blackwood deve ser executada com urgência.”

“Entendo. Isso é tudo?”

“Sim, meu senhor.”

“Você já pode se retirar.”

A sombra partiu tão silenciosamente quanto apareceu, deixando o homem perdido outra vez em seus pensamentos. Erguendo-se de seu trono, aquele homem caminhou até a janela antiga que estava aberta. Um vento fraco soprava do leste enquanto as sombras noturnas de Ravnica adentravam em sua sala de estar. Uma noite sem lua caminhava lá fora ocultando em diversos lugares assassinatos, crimes, subornos e tudo o mais que o submundo estivesse realizando naquele momento.

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Antigamente quando Szadek era o líder da guilda, todos esses tipos de ações deveriam ser feitas com o maior sigilo possível, afinal os Dimir eram conhecidos como Os Invisíveis. Mas não mais. Desde todos aqueles acontecimentos, os Dimir já não eram mais personagens míticos, a guilda era conhecida. Porém, todo o sigilo permanecia e ainda assim a guilda se orgulhava de manter-se aquém do cotidiano ravnicano. Mas a maior diferença era que agora os membros que desejam realizar suas próprias atividades estavam livres para isso desde que não deixassem pistas para que os Boros os seguissem.

“Vanessa Blackwood… bem, acredito que devo fazer uma visita a esta membra da família Orzhov.”

Em uma alta torre gótica e sombria, bem no centro do Beco da Ruína, estava a Torre do Desprezo.  Os quartos da advokista Vanessa  Blackwood eram repletos de pergaminhos, trulls, mortipedes em vidros de alcatrão, asas de diabretes penduradas na parede e mais uma infinidade de coisas que serviam aos seu propósitos. Naquela noite ela despachou todos os seus subordinados, permitindo-se ficar sozinha em seus aposentos, aguardando por seu esperado assassino.

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Num pequeno relance, quando ela vislumbrou o brilho do luar pela janela seus olhos voltaram-se para a figura ereta e sombria que saia sorrateiramente e silenciosamente do canto.

“Você me fez esperar bastante sabia?”

“E você me aborreceu muitíssimo fazendo-me ter que vir aqui pessoalmente.”

“Ora e o que você esperava? Aqueles lacaios que você mandou tentarem me assassinar eram tão entediantes. Eu estava excitada esperando por sua visita.”

Ao término desta frase ela sorrira de maneira saliente. Num sorriso exibindo dentes brancos através de lábios formosos era difícil até para Lord Eddard não perceber aquela beleza.

“Voltamos a este impasse minha querida Vanessa. E me diga o que será de nós agora?”

“Você sabe que eu devo ao Obzedat, não sabe? Se a dívida for paga, estarei livre do Sindicato.”

“Então parece que eu tenho duas opções. Ou eu acabo com sua vida aqui e agora ou selamos nosso destino se tornando parte dos Sem Portão.”

“Encare como quiser, mas lembre-se, a vida sem mim se tornaria uma coisa insuportavelmente entediante.”

E outra vez ela sorria daquela forma que sempre o agradara. Essa personalidade forte e cativante mesclada com toda essa pretensão eram suas mais preciosas jóias.

“Realmente, você não me deixa escolha Lady Blackwood…”

Ele despertou de seu devaneio. Quando deu por si, Lord Eddard estava perante o tribuno no salão do grande Senado Azorius. Grilhões veldakeanos pendiam de seus punhos, impedindo que se movimentasse ou conjurasse qualquer magia.

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Ao redor dele havia uma pequena multidão sentada nos estrados esperando ansiosos a sentença do Arbitro-Mor. Uma audiência dos Azorius sempre era um espetáculo, desde que você não estivesse sentado no lugar do réu.

Lord Eddard apesar de estar preso e aparentemente sem escapatória para seu veredito, mantinha seu orgulho e sua imponência. Pelo canto dos seus olhos ele percebeu Cornelius Soultrader sentado junto ao magistrado de acusação, ostentando seu sorriso apodrecido de dentes amarelos. Ao que tudo indicava, ele estava satisfeito com todo o acontecimento. Subornar os Azorius não era problema para um membro do Sindicato. Ao seu lado pairava a espectral sombra silenciosa e mórbida como sempre. Se ela tinha noção do que estava acontecendo, ela não demonstrava.

O familiar do juiz o encarava de maneira impassível. Será que ele faria algum ruído quando sua sentença fosse decretada?

Enquanto sua acusação era lida, Barvisa, a escriba do tribunal tomava nota através de runas mágicas.

Sergiu, o magistrado, leu as acusações perante o assentamento.

“Lord Eddard Ravenscroft és acusado de fraudar seu acordo com o honorável Cornelius Soultrader. Segundo o contrato especificado e selado com o símbolo de seu anel real, você deveria fornecer dez por cento de todas as informações concedidas a você, seja por meio lícitos ou não, para Cornelius Soultrader. Durante um período de noventa dias você negligenciou sua parte no acordo, violando assim a cláusula que inviabiliza este contrato. Assim sendo, você deve renunciar os direitos legais sobre sua ordem conhecida em Ravnica por “A Mão da Consciência” e transferir para Cornelius Soultrader todas as informações retidas durante o período de tempo já antes citado.”

Houve um pequeno murmúrio entre os presentes. Mas a face de Lord Eddard permanecia fleumática.

O magistrado voltou-se para ele perguntando:

“Lord Eddard você nega as acusações que hoje foram ditas contra sua pessoa?”

Sua resposta foi categórica:

“Não!”

Outro murmúrio mais elevado dos presentes. Ao que tudo indicava, eles estavam pasmados com o fato do acusado ter confessado abertamente o crime e mais ainda pelo fato dele ter recusado a presença de uma advokista para sua defesa.

“Ordem no recinto!”

O Arbitro-Mor ecoou pelo salão, falando pela primeira vez de seu local de preeminência.

“Se voltarem a perturbar a audiência, exigirei que todos sejam retirados do recinto.”

Sua voz era autoritária e demonstrava que não permitiria ser interrompida uma segunda vez. Seu olhar se estreitou e voltou-se para Lord Eddard.

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“Meu caro Lord, como é visto neste dia que vossa senhoria não nega as acusações que lhe foram feitas, cabe a nós do Senado Arzorius primar pelo cumprimento da lei em nossa cidade. Seus feitiços serão confiscados e suas memórias também, junto com todas as suas informações. Seus bens serão igualmente confiscados e permanecerão em posse do membro do Sindicato Orzhov como pagamento de sua quebra de contrato e você cumprirá sua parte no acordo segundo a cláusula do seu próprio contrato. Após todos estes itens terem sido seguidos, você permanecerá retido em uma de nossas celas por cinquenta ciclos lunares. Alguma objeção?”

Outra vez sua voz soou monocórdica:

“Não.”

“Muito bem, o senhor Cornelius pode se aproximar do réu para receber o documento assinado pelo próprio Lord presente, concedendo-lhe todo o poder sobre a ordem criada.”

Cornelius ergueu-se de seu lugar, mexendo com extravagância toda aquela sua opulência. Seu corpo gordo e hediondo se contorcia em frenesi de satisfação.

Ele pegou o documento que fora estendido pela escriba Barvisa. Conferindo todos os pormenores, ele sorriu satisfeito.

“Agora exijo que me entregue todas as informações que me roubou!”

O magistrado Sergiu voltou-se para Lord Eddard e com uma palavra de comando, os grilhões veldakeanos soltaram-se de seus punhos.

“Lembre-se que qualquer ação hostil será respondida com a morte. O senhor pode realizar a transferência.”

O momento pelo o qual ele tanto ansiou finalmente chegara. Livre de seus aguilhões o agente Dimir se dirigiu para o clérigo de aparência mórbida e gordurosa. Conjurando um feitiço que ligou ambas as mentes, a transferência dera início.

Enquanto o fluxo de informações passava pelo Aether de maneira lenta e meticulosa, Lord Eddard conversava com Cornelius.

“Lembra-se de sua antiga advokista Cornelius? Vanessa Blackwood?”

“Ora, mas é claro que sim.”

O opulento clérigo ria enquanto se deliciava com as informações que recebia. Boros, assassinatos, Enxame, corrupção no Senado e todo o tipo de fontes riquíssimas que ele aproveitaria para expandir seu poderio financeiro.

“Então, você deve se lembrar de sua morte e como você tomou sua alma como pagamento pela dívida que possuía com o Sindicato, certo?”

O fluxo aumentava.

“Sim, sim… lembro vagamente. Como todos sabem, a morte não é desculpa para não se pagar uma dívida.”

“E você também se lembra de que ela estava prestes a saudar a dívida com o Obzedat, mas graças a uma artimanha sua, que de alguma forma descobriu os planos dela, você maquinou contra ela e arquitetou sua morte. Retendo assim sua alma para que pagasse sua dívida. E a transformou naquele espectro?”

Ele apontou para a sombra imóvel no centro do Senado. Seu tom de voz se elevara. As palavras saiam numa torrente forte e autoritária. Os murmúrios cessaram e agora todos prestavam atenção ao dialogo que se iniciara.

Por um momento os olhos do clérigo saltaram de sua órbita e certo pavor tomou conta dele, mas sua face tornou-se incrédula outra vez. Ele parecia se deleitar com tudo aquilo.

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“Besteira! Não há como você provar nada do que está dizendo.”

“Sim, há uma maneira. Se você morrer a dívida de Vanessa, estará saudado e ela poderá descansar em paz.”

Enquanto ele pronunciava essas palavras, o que havia iniciado como um pequeno córrego de informações, agora parecia mais uma enxurrada. O fluxo telepático havia se intensificado e todas as memórias e fatos transbordavam para a mente de Cornelius.

Sua respiração tornara-se pesada e ofegante.

“Já basta! O que pensa que está fazendo?”

“Estou pagando minha dívida com vossa senhoria.”

Sua voz soara sombria e maquiavélica.

O clérigo gordo e arcaico estava ficando sem ar. Já não conseguia ficar de pé sem usar de muita força para isso, até que caiu sobre seus joelhos com os olhos saltando e revirando. Espuma branca saia de sua boca carcomida e enrugada.

“Pa…pa… pare, minha mente está entrando em col…”

“Em colapso.”

Eddard terminou a frase para ele.

“Sabe por que eu retinha dez por cento de tudo o que recebia? Porque a mente não suporta mais do que isso. Com acúmulo de informações, o cérebro começa a entrar em sincope. A mente começa a sincopar e se autodestruir devido à torrente de informações que são demais para ela.”

O velho já não conseguia ouvi-lo. Com a mão trêmula ele apontou para o magistrado, sinalizando que o detivessem. Quando um dos guardas ameaçou fazê-lo, rapidamente Lord Eddard voltou-se para o juiz.

“Meritíssimo! Segundo a clausula do contrato, devo eu limitar o fluxo de informações a serem ressarcidas?

“Não senhor. Aqui diz que você deve fornecer a Cornelius tudo o que reteve dele durante os noventa dias. Prossiga!”

O guarda parou sua investida e permaneceu imóvel outra vez. Sentindo-se satisfeito com a resposta, ele voltou seu discurso para o clérigo que agonizava no chão.

A magia mental agora era um fluxo fluvial parecendo uma ribanceira de informações e conhecimento.

“Agora você quer saber por que isso nunca aconteceu comigo meu caro Soultrader? Se eu recebesse todas as informações que A Mão da Consciência me fornecesse, a muito eu já teria morrido. Porém, desde o início eu criei em mim mesmo uma mente falsa. Uma espécie de recipiente que pudesse armazenar e reter dados de uma maneira que eu pudesse utilizá-los sempre que desejasse. Dessa forma, eu mantinha minha sanidade mental e conseguia manter o controle de tudo. Só foi uma questão de tempo para instigá-lo com sua própria ganância.”

Cornelius já não conseguia responder nem gesticular. Seus olhos estavam inchados e o sangue agora escorria dos ouvidos e da boca. Caído no chão, ele se virava em sua própria poça de sangue.

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“Eu receberei a justiça Arzoriana, mas você receberá a minha justiça Cornelius Soultrader. Eu te acuso de assassinar deliberadamente minha esposa Vanessa Ravenscroft e o sentencio a morte. Alguma coisa a dizer em seu favor?”

Não houve resposta. Apenas o gotejar contínuo do sangue empapando as roupas de cetim dourado que adornavam o clérigo. Por um momento Lord Eddard teve a impressão que ele estava olhando para a abantesma, mas seus olhos estavam focadas em outra pessoa que estava sentada na platéia. Mas para quem?

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Enquanto Cornellius olhava para ela, Teysa acenou com aprovação para Eddard. De repente o agonizante clérigo percebeu alguma coisa, mas seria possível? Será que ambos estavam em conluio contra ele?

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Ele tentou balbuciar alguma coisa para Teysa, mas a única coisa que se ouviu foi o som do golfar de sangue que saia de sua garganta. Num momento, seus olhos pareciam que iam estourar enquanto sangue escorria pelos ouvidos e seu imenso corpo se contorcia de dor. Aquilo que um dia fora um alto membro do sindicato Orzhov agora se resumia em uma massa contorcida no chão, empapada de sangue. Seu corpo se deteriorou em segundos. Ele estava embalsamado de feitiços arcanos da mana negra, feitiços que aumentavam sua longevidade, porém degradavam mais e mais seu corpo e alma.

Olhando para a sombra negra que pairava no ar, Lord Eddard falava agora como se falasse consigo mesmo, ignorando o clérigo morto.

“Nossos votos ainda estão guardados e escritos na “madeira antiga” no bosque de Vill-Gazhar.”

O aspecto lúgubre e fúnebre da abantesma começou a se dissipar. O manto esfarrapado negro se desfez em tiras e uma luz dourada a envolveu. Por um instante sua antiga forma reapareceu e o formoso rosto de Vanessa Ravenscroft reapareceu. Um sorriso angelical emanava de seu rosto e livre de seus grilhões, ela se desvaneceu no ar.

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“Realmente, alguns cadáveres os Golgari não conseguem reivindicar e algumas almas, os Orzhov não conseguem agrilhoar para sempre.”

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E chegamos ao fim do Mercador de Ravnica, mas antes de encerrar, gostaria de trazer algumas curiosidades sobre o texto.

A personagem Vanessa é noiva do brother Eduardo na vida real. Achei que daria um tom mais melodramático se eu inserisse alguém ligado ao brother, Eduardo Recife.

A escriba Barvisa pode ser encontrada na carta “Judge’s Familiar“.

O magistrado Sergiu pode ser encontrado na carta “Cancel“.

O termo “madeira antiga” não é alusão ao bosque do Game of Thrones e sim a carta “Carven Caryatid.”

Blackwood foi inspirado no personagem do filme Sherlock Holmes.

 

Bem acredito que é isso. Espero que tenham gostado e ficamos por aqui mes amis e nos vemos no próximo conto.

Grande abraço…

LDantes

Graduado como técnico em logística pelo Centro Paula Souza - Cubatão e no momento cursando Pedagogia pela UFScar. Colecionador de magic, rabiscador de mangás e leitor fanático de Agatha Christie e livros de gênero fantasy. Além de geek assumido, um dos meus hobby é musculação e cooper.

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